miércoles, 16 de abril de 2008

Anatomia da imperfeição


Kalespio acorda dum longo entumecimento, tinha adormecido durante um longo período no velho sofá azul. Olha ao seu redor e observa um pequeno livro de folhas amarelecidas numa pequena mesa quase multiangular dado o ponto visual. Estica uma mão, pega no pequeno livro e lê "Tlön, Uqbar, Orbius Tertius"...muitos anos passados desde a primeira leitura dum prefácio sobre a obra de Fernando Pessoa feito pelo Octavio Paz...recorda os primeiros contactos quase etéreos com obras do Borges, Cortázar, Carpentier...realismo fantástico? E não só! Tenta estabelecer uma linha lógica, traçar um perfil rectilíneo e não consegue. As relações não são evidentemente visíveis para falar-se nelas. Entra num absorto silêncio mental, como num mar das tranquilidades, azul alquímico com píncaros dourados amorfos não visíveis nem explicáveis pelo verbo ou talvez sim, pelo “verbo” original, aquele que se assemelha com o choro duma criança. Não é bem um choro, mais bem um soluço diafragmático gutural.


Abre os braços, sente-se itérbio numa realidade paralela. Sente pesadas as pernas, uma corrente percorre nas costas e lembra Kundalini, a serpente universal, coloca a língua no céu da boca para fechar o circuito e num arranque quântico vê-se a viajar..fecha os olhos e quando os abre, vê na sua frente um gigantesco Athanor e um velho de brancas barbas com um compasso numa mão a medir a distancia entre a terra e o céu. Volta a fechar os olhos e quando os volta a abrir sente uma ligeira corrente de ar húmido vindo do seu lado esquerdo, tenta dar uns passos e não consegue, tenta olhar para seu corpo e constata que não o tinha. O corpo tinha-se transformado numa estrela prateada de seis pontas e flutua...


Um ruido...acorda-o encharcado de suor...o livro de folhas amareladas na mesa quase triangular tinha desaparecido. Acabara de desertar dum sono, ou tal vez duma outra viagem que nunca existiu...

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