viernes, 30 de mayo de 2008

Noctivagações II


Kalespio observa o céu, numa noite com poucas nuvens azuladas com rebordes avermelhados. Num certo ponto vislumbra uma estrela no norte; um barulho de chocalhos metálicos lhe distrai por instantes e quando se apercebe um carro alegórico e carnavalesco quase que atropela uma pequena folha de jornal amarelecido e amarrotado que voa sem rumo no passeio dos subúrbios. A imagem fica congelada por segundos e uma gaivota lança um intrigante grasnido, quebrando a paragem sensorial. Levanta de novo seu olhar aos céus e a estrela que por instantes parecia perto, radiante e lúcida, sofre uma estranha mutação...começa a dançar ao som dos tambores de guerra, sua cor torna-se sangrenta e as estrelas vizinhas começam uma intermitência caótica. Umas riem, outras gritam, outras em cambio ficam a observar.

Kalespio mantém-se calado até tropeçar numa pequena caixa, inclina-se e tenta tocar-lhe, mas a caixa surpreendentemente transforma-se e adopta formas fractais. Um aleph com a inscrição “Pandora”...decide dar um pontapé na caixa, esquecer o assunto e ir beber uma cerveja gelada à primeira esplanada que encontra aberta...

Na explanada, ao sentar-se, encontra abandonado na cadeira vizinha o livro “Contos Persas” de Montesquieu. E ri...ri sem pensar nas consequências do que poderão pensar aqueles que não sabem rir quando o que apetece é chorar ou levantar armas contra a estupidez humana, da qual Kalespio se sente...não se sente digamos.

Medita, enquanto bebe, sobre a percepção da realidade, seus contornos e o motivo que leva a complicar as coisas quando são simples...paga a conta com um sorriso e vai dormir. Nada como dormir para viajar por outras realidades, mais calmas...

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