jueves, 3 de julio de 2008

O primeiro concerto da Fania All Stars em Cuba


Encontrei este fantástico artigo que conta a história de um disco que aprecio muito...



Havana, 3 de março de 1979: O primeiro concerto da Fania All Stars em Cuba
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13 07 2004

por Bernardo Vieira S., Jr.
http://www.salsabrasilonline.hpg.com.br/

Meus caros amigos internautas, leitores do portal Salsa.Com.Br:

Depois de ter contado aqui a incrível história do inconcluso concerto da Fania All Stars no Yankee Stadium em Nova York, agora trago para vocês a história da primeira apresentação da Fania All Stars em Cuba, concerto este realizado no dia 3 de março de 1979, no Teatro Karl Marx, em Havana. Com certeza uma das mais inusitadas apresentações em toda a história da melhor orquestra de Salsa de todos os tempos.

Vale ressaltar que para essa época, a Fania All Stars tinha um contrato com a multinacional Columbia/CBS, e havia lançado alguns LPs para esta companhia, tais como “Delicate And Jumpy”, “Rhythm Machine”, “Spanish Fever” e “Cross Over”. A intenção de Jerry Masucci e Johnny Pacheco era fazer com que a Fania conquistasse espaço junto ao público americano anglo-saxão, por isso não se pode considerar esses LPs exatamente como de Salsa, mas mais como Jazz Latino (embora nesses discos se achem clássicos como “Juan Pachanga”, “Coro Miyare”, “En Orbita”, “Sin Tu Cariño” e “Isadora”, só para citar alguns exemplos). E como contratados da Columbia, a Fania All Stars foi convidada para participar de um festival em Havana, chamado “Havana Jam”, junto com outros artistas americanos de Rock e Jazz do seu elenco.

Ocorre que aí já começaram os problemas: entre os cubanos da banda, Celia Cruz e Justo Betancourt se recusaram a ir, enquanto Orestes Vilató e Pupi Legarreta viajaram com a orquestra. Cheo Feliciano declinou do convite, temendo represálias ao seu filho, que estudava em Miami. Ismael Miranda, por razões pessoais, também não foi a Cuba. Os cantores que estiveram neste concerto foram Ruben Blades, Hector Lavoe, Ismael Quintana, Pete Rodríguez, Luigi Texidor, Santos Colón, Adalberto Santiago e Wilfrido Vargas, que debutava na banda. Os músicos foram Papo Lucca e Larry Harlow (piano), Sal Cuevas (baixo), Eddie Montalvo (congas), Orestes Vilató (timbales), Roberto Roena (bongo), Nelson Gonzalez (tres), Pupi Legarreta (violino), Lewis Kahn, Reynaldo Jorge e Papo Vasquez (trombones), Puchi Boulong, Elías Lopés e Juancito Torres (trompetes), sob a direção de Johnny Pacheco.

Devido aos problemas políticos que são do conhecimento de todos, tudo aquilo que não fosse do agrado de Fidel Castro era logo considerado como ‘anti-revolucionário’. Então, a Salsa sofria um boicote em Cuba por dois motivos: primeiro, por ser considerado ‘americano’ pelo regime. Depois, porque muitos músicos cubanos, tanto na ilha como no exílio, consideravam (e consideram até hoje) a Salsa como um “roubo de identidade” ou simplesmente plágio da música cubana, mais especificamente do Son [vide o caso daquele famoso (sic) escritor cubano, Guillermo Cabrera Infante, que certa vez afirmou que a Salsa não passava de música cubana dos anos 40, só que mal-tocada].

E assim foi que quando a Fania All Stars, ao subir ao palco e tocar as primeiras notas de “Descarga En Cuba”, com um coro que dizia “Salsa y maña, con las estrellas de Fania”, teve a desagradável surpresa de ver uma parte considerável do público presente se levantar e ir embora, já que muitos ali pensavam que a Fania se tratava de um grupo de Rock ou de Jazz. Só ficaram mesmo alguns músicos cubanos, interessados em estabelecer intercâmbio com os músicos de fora, a fim de assimilar o que se passava além das fronteiras cubanas. Gente como Adalberto Alvarez, um dos modernizadores do Son cubano, e Chucho Valdés, mestre maior da orquestra Irakere.

Além de “Descarga En Cuba”, o repertório da Fania All Stars contemplou também os números “Juan Pachanga”, “Menéame La Cuna”, “Llévale”, “Tres Lindas Cubanas” e “Nací Moreno”. O concerto foi gravado ao vivo, e lançado no LP “Havana Jam”. Vale ressaltar a péssima qualidade do som, de modo que algumas coisas foram posteriormente ‘retocadas’ num estúdio em Nova York.

E como se não fosse o bastante, a Puerto Rico All Stars ainda tirou um sarro em cima da Fania por causa desse episódio. No LP “Tribute To Messiah”, no tema “Óyelo Que Te Conviene”, no meio do solo de baixo de Polito Huertas, o coro se sai com essa: “Cuando Polito Huertas toca, la gente no se va, se sienta a escucharlo. Y si lo escuchan en La Habana, pues...”

A Fania All Stars ainda esteve em Cuba mais uma vez, no festival de Varadero, em 1981. Em 1979, a Típica 73 também esteve em Cuba, e gravou um LP nos estúdios da EGREM em Havana, chamado “Típica 73 En Cuba – Intercambio Cultural”. A partir daí, a Típica 73 passou a receber um ferrenho boicote, incluindo aí cancelamento de shows, o título de personas non gratas em Miami, e até mesmo ameaças de morte. O próprio Alfredo De La Fé, que é cubano e viajou com a Típica, relata que os membros da orquestra recebiam cartas anônimas, dizendo que algum dia, as congas da Típica 73 se manchariam de sangue. Isso acelerou o fim da banda, que encerrou suas atividades no começo dos anos 80.

Aí está, amigos, a história da primeira apresentação da Fania All Stars em Cuba, que não teve exatamente uma audiência, senão testemunhas...

Até a próxima. E que os bons sons os acompanhem!

Bernardo Vieira S., Jr.
Natal - RN

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